Dissertação

ANDRETTA, P. I. S.  O leitor contemporâneo e a obra de Machado de Assis : uma análise discursiva da crítica amadora em blogs. 2013. — São Carlos : UFSCar, 2013. 139 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2013. Disponível em: < http://www.bdtd.ufscar.br/htdocs/tedeSimplificado//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=6393 >. Acesso em 01 ago. 2013.

Resumo:

Nesta pesquisa, procuramos apreender o modo como lê uma comunidade de leitores brasileiros contemporâneos, bem peculiar, composta daqueles que atuam, ao mesmo tempo, como novos leitores e novos críticos da obra de Machado de Assis. Para esse fim, nossa análise recaiu sobre comentário s, que são postados por esses leitores em blogs pessoais ou em blogs públicos, sobre suas leituras. Para tanto, recorremos à Análise de Discurso de orientação francesa, partindo de sua preocupação quanto à descrição e análise das formas de produção e de interpretação de um texto, em especial, de sua atenção às coerções que atuam sobre todo e qualquer enunciado, discutidas em trabalhos de Michel Foucault e de Michel Pêcheux. Recorremos ainda à História Cultural, e às noções de representação e de apropriação , conforme apresentadas por Roger Chartier em seus trabalhos, de viés histórico, sobre o leitor e a leitura. Essas teorias nortearam a análise de um corpus constituído por posts de blogs dedicados ao comentário de obras clássicas de Machado de Assis, a saber, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e “Memorial de Aires”, produzidos e publicados entre os anos 2000 e 2010, por leitores ‘nativos da era digital’ os quais, embora ocupem a posição de leigos, no que diz respeito à prática profissional de exercício do comentário/da crítica de obras literárias, assumem o papel de “críticos amadores” e postam seus comentários com base na leitura que realizaram dessas obras. A partir da análise desse corpus , buscamos levantar alguns traços do perfil dessa comunidade leitora que compartilha, entre outras características, uma relativa familiaridade com o universo de produção e circulação de textos pela internet . Mais especificamente, buscamos esses traços a partir da análise da maneira como esses leitores formulam e enunciam, em seus comentários, a leitura que fizeram destes textos que originalmente não lhes foram destinados. A hipótese que norteou nossa pesquisa foi a de que, partindo do pressuposto da AD de que todo dizer é regulado por uma ordem discursiva que atua quando de sua produção e quando de sua interpretação, controlando-as, limitando-as, evitando assim que qualquer um enuncie e leia o que se enunciou de qualquer jeito. Como é próprio, portanto, do funcionamento discursivo, os comentários desses leitores são regidos, de modo geral, por duas ordens do dizer, por duas fontes de coerção que impõem, até certo ponto, o que enunciar e como enunciar desse lugar de comentador de Página 6 obras clássicas da literatura brasileira. A primeira diz respeito à regulação desses comentários pela ordem do universo da crítica autorizada e de prestígio. A segunda diz respeito às coerções oriundas do funcionamento dos gêneros de origem digital, como o blog , e do próprio suporte, o computador, que definem modos de dizer específicos, dadas as novas possibilidades de produção/circulação dos textos (sincréticos, breves, disponibilizados/transmitidos rápida e massivamente) e do público para o qual se dirigem. Assim, buscamos, ao longo desta dissertação, assinalar prováveis continuidades e/ou descontinuidades nas representações discursivas do leitor/crítico profissional e do leitor/crítico amador de obras da literatura canônica brasileira, com ênfase na caracterização desse último a partir da análise discursiva do ‘o quê’ e do ‘como’ ele comenta as obras lidas. Essa análise nos permitiu confirmar nossa hipótese, segundo a qual esses leitores/críticos amadores – apesar de aparentemente produzirem um comentário crítico que, adequado ao meio e ao gênero de origem digital, se apresenta de forma bastante autônoma, pessoal e até mesmo irreverente e dessacralizante acerca de clássicos da literatura, destoando, assim, do estilo da crítica oficial – dizem o que dizem, da forma como dizem, orientados e limitados pelos parâmetros do dizer dessa última ordem, como demonstraremos.

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