A autocitação é a forma como as áreas do conhecimento crescem / Scholarly Kitchen

A autocitação é a forma como as áreas do conhecimento crescem / Scholarly Kitchen

O arcabouço teórico desta pesquisa baseia-se no modelo de estigmergia de Grassé, de 1959, originalmente desenvolvido para explicar como as colônias de cupins constroem estruturas elaboradas sem coordenação centralizada. Os operários individuais respondem autonomamente às modificações já feitas na estrutura ao seu redor, sendo cada ato de construção um estímulo para o próximo.

O paralelo é direto. Quando os pesquisadores citam seus próprios trabalhos anteriores, estão respondendo às suas próprias construções intelectuais e se baseando em estruturas robustas o suficiente para que outros possam se engajar com elas. O cupim operário, observou Grassé, retorna ao mesmo local diversas vezes antes de se mudar para outro lugar. Os pesquisadores que mantêm o engajamento com seu próprio território intelectual estão fazendo algo estruturalmente semelhante. (…)

A desvalorização automática da autocitação na avaliação bibliométrica pode estar penalizando exatamente o tipo de trabalho original e impactante que torna as estruturas de conhecimento suficientemente duradouras para que outros possam construir sobre elas. Essa é a principal alegação que este estudo sustenta.

Nada disso, porém, justifica a autorreferência ilimitada. O uso excessivo de autocitações tem sido explorado para manipular métricas, e a literatura sobre autopromoção por meio de periódicos e cartéis de citação documenta isso claramente. A questão é que a resposta a essa preocupação, na forma de penalidades bibliométricas generalizadas, tem sido brusca, causando danos colaterais à produção acadêmica legítima.

#Autocitação #Ciência

via Scholarly Kitchen

Disponível em: https://scholarlykitchen.sspnet.org/2026/08/20/guest-post-self-citation-is-how-fields-grow/

A máquina consome a si mesma: a inteligência artificial e o fim do “publicar ou perecer” / Postdigital Science and Education

A máquina consome a si mesma: a inteligência artificial e o fim do “publicar ou perecer” / Postdigital Science and Education

Com base em Bourdieu, o artigo interpreta o meio acadêmico como um campo cuja doxa dominante é o produtivismo métrico, no qual a contagem de publicações funciona como capital simbólico. Apoiando-se em Slaughter e Leslie, Peters e Jandrić, bem como no Manifesto de Leiden, o texto demonstra como essa doxa caracteriza a lógica de mercado que coloniza a produção do conhecimento. Recorrendo a Lyotard e a Lave e Wenger, argumenta-se que a redução pós-moderna da legitimidade à performatividade é agora literalmente materializada por máquinas que participam do jogo de linguagem das publicações acadêmicas, ao passo que o caminho de aprendizado para a construção de uma identidade acadêmica está sendo rompido. Trata-se de uma crise incremental e existencial: a relação entre publicação, trabalho, julgamento e reconhecimento — sobre a qual repousa a lógica do “publicar ou perecer” — torna-se cada vez mais insustentável. O artigo conclui esboçando um modelo de bens comuns acadêmicos pós-digitais, fundamentado na contribuição, no diálogo e na prática situada. Qual é o sentido da atividade acadêmica na era das máquinas?

#PublishOrPerish #Ciência #IA #ProdutivismoAcadêmico

Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s42438-026-00666-0

A nova geografia da ciência / Ciência e Cultura

A nova geografia da ciência / Ciencia e Cultura

Durante décadas, o avanço da ciência dependeu principalmente dos investimentos de governos e empresas, responsáveis por viabilizar conquistas como a exploração espacial, o sequenciamento do genoma humano e inúmeras inovações tecnológicas. Ainda assim, projetos de longo prazo, pesquisas de alto risco e ideias sem aplicação imediata frequentemente encontravam dificuldades para obter financiamento.

Mas esse cenário começou a mudar nos últimos anos. Fundações, fundos patrimoniais (endowments), organizações filantrópicas e grandes doadores passaram a investir bilhões de dólares em pesquisa, fortalecendo áreas como inteligência artificial, mudanças climáticas, biodiversidade, saúde global e ciência básica. Conhecida como filantropia científica, essa modalidade direciona recursos privados para pesquisa, infraestrutura, formação de pesquisadores e inovação. Seu principal diferencial é a flexibilidade para apoiar projetos exploratórios e de longo prazo, muitas vezes fora do alcance dos modelos tradicionais de financiamento.

via Ciência e Cultura

#Ciência #Filantropia

Disponível em: https://revistacienciaecultura.org.br/?p=10563

China desestimula publicação de estudos em revistas científicas de fora do país / Folha de S. Paulo

China desestimula publicação de estudos em revistas científicas de fora do país / Folha de S. Paulo

Artigos de autores baseados na China representaram quase um terço do total global no SCI – um banco de dados dos principais periódicos científicos internacionais – em 2024, contra 5% duas décadas antes.

Mas a ênfase em publicações indexadas no SCI também criou incentivos que alimentam má conduta acadêmica, incluindo registros de publicação inflados e artigos baseados em dados manipulados ou fabricados.

Pequim revelou nos últimos anos regras destinadas a reduzir a dominância do SCI na avaliação acadêmica, que tem sido descrita na China como “culto ao SCI”.

Em agosto passado, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China exigiu pela primeira vez que pelo menos 20% dos artigos representativos produzidos por seus projetos financiados fossem publicados em periódicos chineses.

#Ciência #China #ScienceCitationIndex

via Folha de S. Paulo

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/07/china-desestimula-publicacao-de-estudos-em-revistas-cientificas-de-fora-do-pais.shtml

A crise de reprodutibilidade: a ciência está nos enganando? / Polytechnique Insights

A crise de reprodutibilidade: a ciência está nos enganando? / Polytechnique Insights

Em 2005, um artigo com o título sugestivo “Por que a maioria das descobertas de pesquisas publicadas é falsa” (Why Most Published Research Findings Are False), publicado na revista PLOS Medicine, desencadeou o debate. Nele, John Ioannidis avaliou a confiabilidade de estudos que utilizavam análises estatísticas para testar hipóteses — um tipo de estudo muito comum na pesquisa empírica. Com base em simulações, o pesquisador demonstrou que a probabilidade de um efeito relatado em um artigo científico ser real diminuía significativamente sob certas condições: amostras pequenas, efeitos de pequena magnitude, um grande número de hipóteses testadas, métodos não padronizados e a presença de conflitos de interesse ou intensa competição na área. Confirmação experimental contundente

Nos anos seguintes, em uma tentativa de documentar empiricamente o fenômeno, a Open Science Collaboration propôs-se a replicar 100 estudos experimentais na área de psicologia. (…)

Desde então, as conclusões de John Ioannidis foram confirmadas em diversas disciplinas. (…)

O problema, portanto, é profundo. Isso significa que devemos concluir que todo o conhecimento científico considerado definitivo nessas áreas é questionável? Digamos de forma clara e firme: não. Um efeito é considerado certo apenas quando confirmado por múltiplas linhas de evidência de alto nível, como ensaios clínicos randomizados conduzidos adequadamente ou meta-análises com alto poder estatístico. “Não há razão para duvidar da eficácia das atuais vacinas contra a Covid ou da ligação entre câncer de pulmão e tabagismo — para citar apenas alguns exemplos —, pois esses fatos foram identificados por meio de estudos convergentes em diferentes disciplinas”, observa Florian Naudet.

#Ciência #Reprodutibilidade

via Polytechnique Insights

Disponível em: https://www.polytechnique-insights.com/tribunes/science/crise-de-la-reproductibilite-la-science-nous-tromperait-elle/

Europa propõe padrões mínimos para proteger pesquisadores / Science Arena

Europa propõe padrões mínimos para proteger pesquisadores / Science Arena

A Science Europe, associação que reúne as principais organizações europeias de financiamento e execução de pesquisa, publicou um relatório com recomendações de padrões mínimos para a carreira científica no continente. O documento busca orientar como a Europa deve responder aos desafios enfrentados por pesquisadores e criar condições para a formação da próxima geração de líderes em ciência.

O documento parte de um diagnóstico preocupante: a precariedade profissional persistente no meio acadêmico europeu, marcada por contratos de curta duração, trajetórias fragmentadas e alta dependência de financiamento por projeto.

Para a Science Europe, sem reformas estruturais o continente corre o risco de evasão de cérebros e de perder competitividade em pesquisa e inovação.

#Cientistas #Ciência #BoasPráticas

via Science Arena

Disponível em: https://www.sciencearena.org/carreiras/europa-propoe-padroes-minimos-para-proteger-pesquisadores/

Quando a ciência sai da estante / Jornal da USP

Quando a ciência sai da estante / Jornal da USP

Portanto, o que frequentemente faz a diferença não está apenas na ciência em si, mas também na eficiência das cadeias de tradução. Quando essas cadeias funcionam bem, ideias que poderiam passar despercebidas podem gerar consequências materiais de proporções consideráveis. Quando falham, mesmo as descobertas importantes permanecem incapazes de promover uma reorganização social significativa.

A pandemia de covid-19 mostrou isso de forma dramática. Nunca a humanidade produziu tanta informação científica em tão pouco tempo. Sequenciamento genético, epidemiologia, imunologia e modelagem matemática avançaram de forma extraordinária. Mas a circulação desse conhecimento encontrou sistemas sociais profundamente fragmentados.

(…) Talvez seja justamente aqui que a ciência da informação, a semiótica e os sistemas complexos se tornem fundamentais para o século 21.

#DivulgaçãoCientífica #Ciência #Universidades

via Jornal da USP

Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/marcos-buckeridge/quando-a-ciencia-sai-da-estante/

O que é ciência, afinal? / A Terra é redonda

O que é ciência, afinal? / A Terra é redonda

A ciência que interessa ao Brasil, nunca duvidemos disso, é a ciência que interessa ao povo – e não ao agronegócio, à especulação financeira. Sob a imposição de traços culturais retrógrados – patriarcalismo, machismo – e de acordo com a orientação dos tempos pós-modernos, o país é repleto de não-saberes que (muito infelizmente) também são poderes.[iii]

Portanto, como indicado no início, é possível partir da premissa de que a ciência é um processo de investigação que segue padrões ou modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação, prospecção (“experimentação”), catalogação, análise (refutação ou confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a “massa crítica” surge com a insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, sem que se anule todas as interferências externas (não cientificas) advindas da política, da economia, da cultura, da moral e da própria visão de mundo do sujeito cognoscente sobre o objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com “lugar de fala”).

#Ciência #CiênciaBrasileira

via A Terra é redonda

Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/o-que-e-ciencia-afinal/

Corpora contaminados: como a crise das retratações está sendo silenciosamente incorporada ao conhecimento científico da IA / Business Information Review

Corpora contaminados: como a crise das retratações está sendo silenciosamente incorporada ao conhecimento científico da IA / Business Information Review

Este artigo argumenta que a crise de retratação na publicação acadêmica está cada vez mais presente em grandes conjuntos de dados de treinamento de modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês) por meio de acordos comerciais de licenciamento entre editoras e IA, que fornecem arquivos completos de periódicos sem filtragem de retratações. Utilizando uma abordagem conceitual-analítica, o artigo sintetiza três vertentes da literatura empírica: estudos sobre o crescimento de retratações e citações pós-retração, pesquisas que examinam as interações entre LLM e artigos retratados e acordos de licenciamento entre editoras e IA documentados (…) O estudo conclui que garantir a integridade do conhecimento científico gerado por IA requer uma governança da informação mais robusta e o envolvimento ativo de profissionais da biblioteconomia e da ciência da informação na supervisão dos conjuntos de dados de treinamento de IA.

#Ciência #ComunicaçãoCientífica #IA #Retratação

Disponível em: https://doi.org/10.1177/02663821261460796

Ciência de fronteira exige risco, mas Brasil ainda pune o fracasso / Science Arena

Ciência de fronteira exige risco, mas Brasil ainda pune o fracasso / Science Arena

Avaliadores podem rejeitar propostas que desafiam paradigmas estabelecidos, especialmente quando essas propostas cruzam fronteiras disciplinares e escapam aos critérios de avaliação tradicionais e consagrados.

O resultado é um sistema cuja estrutura muitas vezes pune o risco. As métricas de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), principal órgão de avaliação da pós-graduação no Brasil, focam em resultados rápidos e impacto mensurável. Projetos com potencial inovador, mas com mais chances de insucesso, nem sempre encontram ambiente favorável à aprovação.

#Ciência #CiênciaBrasileira

via Science Arena

Disponível em: https://www.sciencearena.org/noticias/ciencia-de-fronteira-exige-risco-mas-brasil-ainda-pune-o-fracasso/

O espírito científico contra a certeza absoluta / Outras palavras

O espírito científico contra a certeza absoluta / Outras palavras

O espírito científico proposto e discutido em Gaston Bachelard não se constrói como um dado imediato, mas de forma profunda e em constante crescimento, não apenas como um pensamento, mas como um ato: uma ação contínua de questionamento. Trata-se da capacidade de romper com o conhecido, com o senso comum e com as ideias tão bem formuladas ao longo do tempo, propondo novas interpretações e estando aberto a elas, fugindo do dogmatismo, um dos pilares que atravancam esse processo construtivo. Nesse movimento, o já conhecido não é simplesmente abandonado, mas negado e reelaborado, num processo em que a ruptura não destrói o saber anterior, mas o engloba criticamente, deslocando-o para um novo patamar de compreensão. Essa negação, longe de ser destrutiva, é produtiva: ela funda um novo regime de inteligibilidade, no qual o erro deixa de ser um desvio e passa a ser um momento constitutivo do próprio conhecer. Tal dinâmica evidencia que o avanço do conhecimento não ocorre por acumulação, mas por descontinuidades, nas quais cada novo saber reorganiza retroativamente o que se julgava conhecido. É nesse sentido que o espírito científico se apresenta como uma espécie de pedagogia do erro, uma aprendizagem que se faz contra o próprio pensamento anterior.

#Ciência #GastonBachelard

via Outras palavras

Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-espirito-cientifico-contra-a-certeza-absoluta/

Por que a IA não consegue fazer boa ciência sem humanos? / Nature

Por que a IA não consegue fazer boa ciência sem humanos? / Nature

Os cientistas não devem permitir que uma visão negativa da IA ​​os impeça de explorar as possibilidades que a colaboração com cientistas que utilizam IA pode trazer para a pesquisa. Da mesma forma, porém, devem se elevar acima do ruído da propaganda exagerada sobre IA e defender sua própria importância — para lembrar ao público em geral, aos financiadores e aos colegas pesquisadores que a ciência ainda precisa da humanidade e que nem toda proposta de financiamento precisa incluir um projeto de IA.

Perutz iniciou seu ensaio com uma falsa dialética que também assola muitas discussões modernas sobre IA: “A pesquisa científica é a busca mais nobre da mente humana, da qual brota um fluxo incessante de descobertas benéficas, ou é uma vassoura de feiticeiro que nos ameaça com a destruição?”. Esses extremos opostos, ambos verdadeiros à sua maneira, não devem distorcer o verdadeiro potencial da IA ​​— nem obscurecer suas limitações.

via Nature

#Ciência #IA

Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01551-3