O giz e o prompt: o dilema de um professor universitário de meia-idade / Jornal da USP
(…) o professor Neira escreve: “O problema não está na existência da ferramenta, mas na maneira como ela interfere na relação da(o) estudante com a aprendizagem. Em si, esses recursos não são necessariamente negativos. A dificuldade surge quando deixam de funcionar como apoio à elaboração intelectual e passam a ocupar o lugar do trabalho que cabe à(ao) estudante realizar”.
Aqui me atrevo a adicionar ao texto apenas a palavra “professor”, ou seja, a dificuldade surge quando deixam de funcionar como apoio à elaboração intelectual e passam a ocupar o lugar do trabalho que cabe à(ao) estudante/professor realizar.
O futuro chegou, meus caros colegas, e não podemos mais negá-lo, cabe a nós agora seguir por este caminho de novas descobertas, aprendendo com os erros que, certamente ocorrerão nesta nova fase de nossa vida acadêmica, ou seja, a Ciência também vista à luz da inteligência artificial, e olha que quem está se comunicando com vocês é do tempo do mimeógrafo, da transparência e dos carrosséis de slides.
Mesmo sobre ombros de gigantes a ciência vai regredindo / SciELO
A frase popularizada por Isaac Newton nos lembra de que o conhecimento produzido não decorre exclusivamente do nosso mérito, mas também está vinculado às contribuições de pensadores, pesquisadores e orientadores (os “gigantes”) que nos acompanharam ao longo de nossa formação.
Em meio às restrições à liberdade científica e aos escândalos de fabricação, falsificação ou plágio deliberado, associados à cultura do “publish or perish” e ao uso inadequado da inteligência artificial, torna-se inevitável refletir sobre o que nos levou a essa situação obscena e insustentável.
Retratação de artigos cresce em velocidade bem maior do que a do avanço da produção científica / Pesquisa Fapesp
Enquanto a produção científica mundial dobra a cada 15 anos, a quantidade de artigos que sofreram retratação, ou seja, que foram considerados inválidos por erros ou má conduta, tem duplicado a cada 3,3 anos. Já o contingente de artigos suspeitos de serem produzidos por fábricas de papers, organizações fraudulentas que produzem e vendem artigos científicos falsos ou de baixa qualidade, se multiplica por dois a cada período de 18 meses.
Pesquisadores criam ferramenta de IA que tenta prever falhas em estudos científicos / Folha de S. Paulo
Cientistas publicam mais de 10 milhões de estudos e outras publicações por ano. Algumas dessas descobertas vão se somar ao acervo de conhecimento da humanidade. Mas algumas estarão erradas.
Para avaliar um estudo, cientistas podem replicá-lo para ver se obtêm o mesmo resultado. Mas há sete anos, uma equipe de centenas de cientistas se propôs a encontrar uma maneira mais rápida de avaliar a nova literatura científica. Eles construíram sistemas de inteligência artificial para prever se os estudos resistiriam ao escrutínio.
O projeto, financiado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Darpa, na sigla em inglês) foi chamado de Confiança Sistematizada em Pesquisa Aberta e Evidência (Score, na sigla em inglês). A ideia veio de Adam Russell, então gerente de programa da agência. Ele imaginou gerar uma espécie de pontuação de crédito para a ciência.
Cooperação brasileira com os países do Mercosul (1991-2020): evolução e tendências no campo da pesquisa cientìfica / PPGCI – UFBA
O corpus da pesquisa corresponde à produção científica do Brasil em cooperação com os países membros plenos, coletada na base de dados Scopus no período de 1991 a 2020. O estudo foi desenvolvido em três etapas: levantamento da produção científica conjunta; identificação dos principais indicadores de produção (autores, países, periódicos, instituições e agências de fomento); e análise da coocorrência de palavras-chave do autor e de sua evolução temporal por meio do software SciMAT. Os resultados evidenciam a Argentina como principal parceira científica do Brasil, reunindo 9.387 artigos no período de 2011 a 2020, o que representa 49,7% de sua produção cooperada nas três décadas analisadas. O Brasil figura como o maior articulador regional, enquanto o Uruguai apresenta crescimento progressivo, e o Paraguai se encontra em processo de consolidação científica, com forte dependência de parcerias externas. A análise de coocorrência de palavras-chave do autor revelou que a cooperação Brasil–Paraguai se concentra nas Ciências da Saúde, Biológicas e Agrárias; a cooperação Brasil–Uruguai destaca as Ciências da Saúde, Biológicas, Naturais e Químicas; e a parceria Brasil–Argentina demonstra uma colaboração ampla e interdisciplinar, com forte presença das Ciências da Saúde e Biológicas, além de integração significativa com as Ciências Exatas e da Terra.
Cientistas da IA estão transformando a pesquisa — instituições, financiadores e editoras precisam reagir / Nature
Alguns pesquisadores argumentam que a IA simplesmente muda o foco das habilidades humanas, assim como as calculadoras libertaram os humanos da dependência da aritmética. Mas ninguém jamais precisou se preocupar com a possibilidade de a resposta de uma calculadora estar errada. É por isso que a Nature já exige transparência sobre como os Modelos de Aprendizagem Baseados em Lógica (LLMs) são usados em artigos submetidos e não aceita tais modelos como autores (veja go.nature.com/40j450w). Para garantir a reprodutibilidade, quando um modelo contribui para a parte criativa de um estudo, a Nature incentiva os pesquisadores a enviarem transcrições das perguntas e respostas do modelo juntamente com os resultados finais, como se faz com conjuntos de dados.
Publicar os detalhes do The AI Scientist é um passo para entender o valor que a automação pode trazer para a ciência. Muito mais trabalho é necessário para garantir que essas ferramentas possam beneficiar todo o ecossistema de pesquisa. Cabe à comunidade científica estabelecer mecanismos de proteção para garantir que isso aconteça.
O grupo que documenta o desmonte da ciência nos EUA / Núcleo
Em janeiro deste ano, a revista Nature publicou uma reportagem com infográficos que revelavam o declínio da pesquisa científica nos EUA, um ano após Donald Trump retomar o poder no país. Segundo o texto, foram mais de 7.800 cancelamentos de bolsas, US$32 bilhões cortados do orçamento e 25 mil cientistas e assistentes que deixaram seus cargos.
Esses dados só existem porque um grupo de cientistas tomou para si o trabalho de catalogar a devastação na ciência promovida pelo governo Trump. E fez tudo isso enquanto algumas de suas próprias bolsas eram cortadas.
O novo capitalismo financeiro e o avanço anticientífico / El cohetea la luna
Uma investigação do jornal El País revela a “ rede obscura ” de compras de periódicos científicos a partir de mansões na Inglaterra, com o objetivo de transformá-los em instrumentos financeiros que contribuem para a degradação do conhecimento acumulado.
Um desses muitos casos foi o de El Profesional de la Información. Com mais de três décadas de história, foi comprada por quase um milhão de euros pela editora britânica OAText, que mais tarde se tornou a Oxbridge. Em pouco mais de um ano de práticas fraudulentas, a revista foi removida do índice Web of Science. Em uma carta recente, Tomàs Baiget , editor fundador de El Profesional de la Información , observou que, após a venda da revista, ao revisar as bibliografias de vários artigos publicados, percebeu que a Oxbridge havia inserido referências que não pertenciam aos artigos originais. Mais tarde, ele percebeu que vários dos artigos publicados “eram idênticos: quase certamente foram produzidos por fábricas de papel ”. Em apenas um ano, “ o impacto foi devastador ”: editores convidados cancelaram chamadas para artigos, muitos autores retiraram seus manuscritos e o fluxo de submissões despencou. O fundo de investimento chegou, devorou, engoliu e varreu tudo em seu caminho. (…)
Embora as ciências continuem a manter uma aura de território asséptico e neutro, intocado pelos pecados mundanos, como qualquer outra prática social e coletiva, elas fazem parte do tecido social que as molda. Suas decisões, prioridades e conflitos não surgem no vácuo, mas respiram o mesmo ar da sociedade globalizada e, portanto, são terreno fértil para as práticas desse novo capital financeiro. Na mesma entrevista com Peter Hotez citada no início, o entrevistador lhe faz a seguinte pergunta: “ A postura usual da comunidade científica é manter-se publicamente neutra, especialmente em relação a questões políticas. Mas, diante da crescente onda anticientífica, o senhor acha que isso precisa mudar? ”. Ao que Hotez responde, entre outras coisas: “ Alguém que ganhou o Prêmio Nobel pelo desarmamento nuclear disse que a ideia de que a ciência é politicamente neutra foi destruída pela bomba de Hiroshima. Acho que há verdade nisso, e precisamos começar a pensar nesses termos e a falar sobre política para resolver problemas ”.
A ciência precisa de apoio, não de torcida / Questão de Ciência
O torcedor quer apenas que o seu time ganhe, enquanto o apoiador quer que o jogo seja honesto. São desejos diferentes, às vezes compatíveis, mas frequentemente em tensão. E quando estão em tensão, a ciência precisa de quem escolha o jogo honesto, mesmo que o placar não seja o que se esperava.
Apoio não é uma postura passiva. Exige questionar, avaliar, defender condições ideais de jogo e resistir à sedução do viés de confirmação. Exige ainda familiaridade suficiente com o método para reconhecer quando um estudo é bom e quando é apenas conveniente. Além de exigir disposição de dizer: “esse resultado que eu queria que fosse verdade não se sustenta” e tratar isso como notícia relevante, não como derrota pessoal.
Exige, enfim, entusiasmo pela ciência pelo que ela é e não pelo que você gostaria que ela fosse. A torcida faz barulho. É o apoio que faz ciência.
Debate sobre polilaminina poderia elucidar fronteiras da ciência / Folha de S. Paulo
Querendo ou não, Sampaio foi parar numa posição em que justamente a lógica e as fronteiras da ciência –o que é honesto ou não afirmar com base nela– precisam ser discutidas, com compaixão, mas também com a mais absoluta clareza, diante de toda a população.
Quando ela diz que não vê a ciência como o valor humano supremo, sou capaz de assinar embaixo com tranquilidade. Mas ela ainda é de longe o melhor mecanismo para elucidar como o mundo funciona.
Seria uma enorme contribuição se a pesquisadora se dispusesse a liderar o debate, sem desmerecer a fé das pessoas (com cruz e tudo), mas também ajudando-as a entender que a fé não pode ser vista como mágica. No longo prazo, seria um legado tão importante quanto o de um possível novo tratamento.
Resultado é só a parte mais visível da ciência / Questão de Ciência
Não é razoável cobrar da ciência a pressa que deriva da nossa percepção subjetiva e equivocada sobre o tempo do conhecimento. Não é razoável interpretar o silêncio que se segue a estudos preliminares como prova de supressão. E não é desejável celebrar conquistas científicas sem compreender minimamente o processo que as tornou possíveis. Quem celebra a “vacina que cura o câncer” antes de entender o que isso significa em termos de fase de desenvolvimento clínico está, de certa forma, operando na mesma estrutura cognitiva de quem acredita na “cura natural” promovida por um influenciador: ambos reagem a uma promessa, sem avaliar a evidência.
Ciência não é mágica. É algo mais difícil e também mais bonito do que magia: é o resultado de pessoas que ousaram passar décadas fazendo perguntas que não tinham resposta, testando hipóteses que frequentemente falharam, comunicando honestamente seus erros e recomeçando. O que chega até você é a ponta visível de um iceberg de persistência, rigor e, muitas vezes, “fracasso produtivo” que nunca aparecerá no noticiário. Vibrar com a ponta do iceberg é completamente legítimo. Apenas não esqueça que a maior parte está submersa, e que é exatamente ela que sustenta o que você está vendo hoje.
Em uma tarde gélida na Noruega, no início deste mês, Dan Quintana, professor de psicologia da Universidade de Oslo, decidiu ficar em casa e concluir uma tarefa tediosa que vinha adiando há semanas. Um editor de uma revista renomada em sua área havia lhe pedido para revisar um artigo que estavam considerando para publicação. Parecia um trabalho científico simples. Nada lhe pareceu suspeito, até que Quintana olhou as referências e viu seu próprio nome. A citação de seu trabalho parecia correta — continha um título plausível e incluía autores com quem ele já havia trabalhado —, mas o artigo em questão não existia.
A IA também pode gerar imagens para artigos falsos. Um artigo de revisão de 2024, agora retratado, publicado na Frontiers in Cell and Developmental Biology, apresentava uma ilustração gerada por IA de um rato com testículos hilariamente desproporcionais. A ilustração não só passou pela revisão por pares, como foi publicada antes que alguém percebesse. Por mais constrangedor que isso tenha sido para a revista, o prejuízo foi mínimo. Muito mais preocupante é a capacidade da IA generativa de criar imagens convincentes de cortes finos de tecido, campos microscópicos ou géis de eletroforese, comumente usados como evidência em pesquisas biomédicas.
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